Monday, February 12, 2007

Hoje

Na estrada dourada que leva a Samarkand, o pó cobre as roseiras. Cachorros famintos disputam entre si o pouco que encontram em meio aos restos dos viajantes. Estes, hoje, são bem poucos, e ao se encontrar (sempre indo, nunca vindo), não se cumprimentam como irmãos, como amantes ou como aqueles chatos que te reconhecem como compatriota numa terra distante. Passam um pelo outro, agarrando firme seus pertences, com medo de ser roubados. Mal olham para os tijolos dourados, nem reparam que em cada um deles há uma houri do paraíso, presa lá por uma bruxa velha, esperando um simples olhar para libertá-la. Ignoram houris, ignoram rosas, ignoram cachorros famintos e a poeira; só pensam em Samarkand, e por isso nunca chegarão lá. A cidade, com seus pátios vazios de lápis-lazúli e esmeralda, sente falta dos viajantes de outros tempos, com suas mulas de arreios de prata ou com seus potros cavalgados em pelo, viajantes para quem qualquer parada ou encontro na estrada era motivo para uma festa de rara alegria. Às vezes, Samarkand a saudosa solta um suspiro imenso, que na forma de uma nuvem negra se espalha pelo deserto, matando a sede dos vira-latas.

Thursday, February 01, 2007

Post casado B

Porto

Havia nos olhos postos o sentido
de não vencerem distancias.
Calados, mudos, de lábios colados no silêncio
os braços cruzados como quem deseja
mas de braços cruzados.
Os navios chegavam ao porto e partiam.
Os carregadores falavam da gente do mar.
A gente do mar dos que ficam em terra.
As mercadorias seguiam.
Os ventos, dispersos na alma do tempo,
traziam as novas das terras longínquas.
Segredavam-se em noites e dias
a todos os homens
em todos os mares
e em todos os portos
num destino comum.

Os navios chegavam ao porto
e partiam...

-Alexandre Dáskalos

Sunday, January 28, 2007

III/IV

Sentado na beira da cama, coço a barriga. Conto as pelancas, no rastro que sobe entre elas olho os fios brancos que se mesclam aos pretos. Será que foi tanto tempo assim? Deve ter sido. Acordar já foi sinônimo de se levantar pra mim, não é mais. Passo um tempo assim, dormindo sentado e coçando a barriga. Às vezes acho que pareço um macaco velho no zoológico, espero que ninguém traga crianças aqui pra rir de mim. Será que é por conta desse medo que nunca tive filhos?
Perguntas demais pra se fazer logo de manhã. Limpo a cabeça delas - de que adianta - e vou fazer o café. Tomo o café queimado, como de costume, logo depois de sair do banho. Nunca consegui me acostumar com o tecido da camisa do uniforme. É liso demais, o rayon desliza pela pele com um som que não se ouve, mas que incomoda. O sol lá fora, quente apesar de sua luz ainda ser amarela, deixa claro que pôr uma regata por baixo não é uma boa idéia.

Pensar demais de manhã cedo não é um bom sinal. Andando pela rua, pequenas coisas me incomodam, mas o que é pior é que o incômodo que elas causam me irrita. Estar irritadiço é irritante. Começo a cantarolar pra ver se passa a irritação, mas sei lá. Acho meio ridículas todas as músicas que canto. Melhor seguir em frente. Entrar no ônibus, me segurar na barra de alumínio, como se fosse só uma máquina. Ou um macaco, um estranho macaco pendurado junto com o resto da tribo num galho de alumínio. O ônibus pula e geme até chegar ao pátio de trem.

O problema não é a velhice, é a falta de vida. Se me perguntassem o que eu queria saber quando era criança, eu responderia "os nomes de todas as estrelas, as línguas dos homens e dos anjos, os segredos de todas as cidades, a história escondida da humanidade." Se me perguntassem o que sei hoje, responderia que botões apertar, e em que lado de cada estação os passageiros devem sair.

Acho que basta.

Tuesday, January 16, 2007

Quase traduzindo Baudelaire

O vinho reveste o pior pardieiro
de um luxo milagroso
Faz surgir mais de um pórtico fabuloso
Nos ouros de seu vapor rubro
Qual um sol se deitando num céu chuvoso

O ópio aumenta o que não tem fronteiras
Alonga o que não tem limite
Aprofunda o tempo, deixa a volúpia gigante
E de prazeres negros, mornos
Enche a alma para além do que nela cabe

Tudo isso não vale o veneno que escorre
De teus olhos, de teus olhos castanhos
Lagos onde minha alma se vê ao em espelho...
Meus sonhos vêm, uma multidão
Para se viciar nesses amargos canyons

Tudo isso não vale o prodígio terrível
Da tua saliva que morde
Que mergulha no esquecimento minh'alma, sem pesar
Que, carregando a vertigem,
A joga tropeçante nas margens da morte.

Sunday, January 14, 2007

Monday, January 08, 2007

Macarrônico

Se tem uma habilidade de personagem fictício que eu queria ter, mais do que o vôo dos anjos ou o anel do Lanterna Verde, é a do Jack Sparrow (tenho certeza de que há referências melhores, inclusive que eu mesmo já li ou assisti, mas não lembro de nenhuma no momento), de saber sempre exatamente o que quer. Com bússola.

Em homenagem à realidade que é quase o contrário, ponho aqui um poema do mestre Juó Bananere.


TEGNO una brutta paxó,
P'rus suos gabello gôr di banana,
I p'ros suos zoglios uguali dos lampió
La da igregia di Santanna.

Ê mesimo una perdiçó,
Ista bunita intaliana,
Che faiz alembrá os gagnó
Da guerre tripolitana.

Tê uns lindo pesigno
Uguali cos passarigno,
Chi stó avuáno nu matto;

I inzima da gara della
Té una pinta amarella,
Uguali d'un carrapatto.

Wednesday, December 13, 2006

Ineficácias

Existem trinta e cinco maneiras eficazes de se conter uma lança mágica, quando esta grita por sangue. Nenhuma delas funciona.

As coisas esquisitas de que você se lembra quando acorda de um sonho...e o que é mais estranho, a frase continua martelando na minha cabeça depois, ao contrário da maioria das lembranças de sonhos, que vão-se embora que nem fumaça. Sabe o que é tomar banho, escovar os dentes, escolher uma cueca, pegar o metrô, chegar ao trabalho, sempre acompanhado por um punhado de palavras que parece ter escapado de Conâo o Super-bárbaro número vinte e sete?

No trabalho, quase respondo usando a frase pra alguém que me pergunta se o café acabou. Será que café é uma das maneiras eficazes de se conter uma lança mágica? Fico pensando se as palavras foram a introdução pro sonho, se nele uma das maneiras era mergulhando a lança numa imensa taça de café, forte como o diabo, preto como a noite e doce como o pecado. Como as taças do Chapeleiro Louco em que as crianças brincam na Disney.

A frase me ataca de novo quando estou pedindo uma bala halls depois do almoço. Me lembro da propaganda em que pinguins estapeavam as pessoas em nome de Deus, do Rei e da Halls. Será que lanças mágicas matam pinguins digitais? O que elas bebem, se não têm sangue os cadáveres que produzem? Pixels, números, equações? Será que uma equação sorvida por uma lança mágica deixa de existir para a matemática?

Como se o meio-dia desfizesse os sonhos, consigo ficar sem pensar em lanças mágicas pelo resto da tarde. Às vezes penso que gostaria de ter uma lança mágica para me livrar de algumas coisas, mas é só. Talvez não seja o sol, mas a banalidade quase excessiva de leis e relatórios que espanta Conão, Super-bárbaro, e tudo que ele leva consigo. Como seriam os relatórios de um bárbaro? "Viagem para saque e pilhagem. Resultados m. expressivos, com nossa equipe totalizando 1.045 estupros, 122 casas pilhadas, 226 incendiadas, e 301 escravos adquiridos. Vide relatório médico apensado para baixas."

Na hora do lobo, andando na rua, o instrumento de trabalho de Conão (não esse, a lança) volta para me assombrar. Fico me perguntando se algum dos postes na rua não será o esconderijo secreto de uma lança mágica. Uma lança mágica...talvez todos os postes escondam lanças mágicas, e seja essa, a trigésima-sexta, a única maneira eficaz de se conter uma lança mágica que realmente funciona. Por que funciona? Porque a banalidade dos postes as faz adormecer, ou porque ficam contentes, se alimentando dos sonhos, das preocupações e desejos, dúvidas e inconstâncias dos que passam por elas?

À noite, no banho, ainda tento lembrar o sonho para além da frase. Começo a imaginar - teria sido um sonho surrealista, em que a frase era pronunciada por um velho de nariz grande, ou escrita no zepelim da Goodyear? Um sonho fantástico, em que um gigante me ensinava (e a Conão) o assunto? Um sonho corriqueiro, em que eu lia a frase num livro qualquer?

Desisto, e me deito até que vem um sono sem sonhos.