Tuesday, February 06, 2018

Leda, no Swan

Where I'm not given a complaisant smirk
my mouth might be a slightly startler "O" - 
a half a 'no' that needn't count as No. 
You will deduce he didn't have to work
so very hard, to part my pretty legs.
His curving neck, my curving arm, his beak
in almost a caress against my cheek - 

no, this is not a scene, you'll say, that begs 
use of the hard word Rape. Where is the rape?
Look how the gentrle victim's dreamy eyes
register nothing more than 'vague' surprise;
those limbs suggest no effort at escape.
Ever been frightened by an animal?
Ever get knocked, sprawling flar on your back
in the senseless impact of brute attack?
Ever been winded, and hysterical?

Wings that could break your arm thrashing your chest, 
a black bill hissing in your eyes, obscene,
inhuman, spitting noises that can mean
nothing but let-me-get-it-in; you, pressed
with the weight of a foreign body on 
your guts, clammy webbed feet scrabbling to get
a purchase; two or three rough jerks; a jet
of alien slime
                                                       Don't get raped by a swan.

That's my advice. They said he was divine,
when they found me retching myself inside
out, afterwards, throwing up as if I'd 
never stop. They said, treat it as a sign 
of enviable favour. You're a myth,
now, they said; try to behave like one. Though
what I always wished, if you want to know,
was that I'd had something to hurt him with. 



                                                             - Eleanor Brown

Thursday, February 02, 2017

Remember me when I am gone

Remember me when I am gone away,
   Gone far away into the silent land;
   When you can no more hold me by the hand,
Nor I half turn to go yet turning stay.
Remember me when no more day by day
   You tell me of our future that you planned:
   Only remember me; you understand
It will be late to counsel then or pray.
Yet if you should forget me for a while
   And afterwards remember, do not grieve:
   For if the darkness and corruption leave
   A vestige of the thoughts that once I had,
Better by far you should forget and smile
   Than that you should remember and be sad.


- Christina Rossetti

Wednesday, January 11, 2017

Qu'est ce que les rois mages

Qu'est-ce que les Rois Mages
ont-ils pu apporter?
Un petit oiseau dans sa cage,
une énorme Clef

de leur lointain royaume, -
et le troisième du baume
que sa mère avait préparé
d'une étrange lavande

de chez eux.
Faut pas médire de si peu,
puisque ça a suffi à l'enfant
pour devenir Dieu.



-Rainer Maria Rilke




O que teriam trazido 
os reis magos?
Um passarinho em sua gaiola,
uma enorme Chave

de seu longínquo reino - 
e, o terceiro, um bálsamo
preparado por sua mãe
com uma estranha lavanda

que lá crescia. 
Não se diga que era pouco,
já que bastou para o menino
se tornar Deus.

Tuesday, November 29, 2016

The More Loving One

Looking up at the stars, I know quite well
That, for all they care, I can go to hell,
But on earth indifference is the least
We have to dread from man or beast. How should we like it were stars to burn
With a passion for us we could not return?
If equal affection cannot be,
Let the more loving one be me. Admirer as I think I am
Of stars that do not give a damn,
I cannot, now I see them, say
I missed one terribly all day. Were all stars to disappear or die,
I should learn to look at an empty sky
And feel its total dark sublime,
Though this might take me a little time.

-WH Auden


Olho para as estrelas, e sei bem
Que por elas, eu poderia me foder.
Mas na terra, a indiferença é sem
dúvida, de gente e bicho, pouco a temer.
Como nos sentiríamos se as estrelas por nós ardessem
Com uma paixão que não pudéssemos retribuir?
Se não pode se igualar a afeição,
que seja minha a maior paixão.
Admirador como sou (estou imaginando)
de estrelas que estão cagando,
agora que as vejo, não posso dizer
que, pelo dia, senti a saudade me roer.
Se morressem todas as estrelas, ou sumissem,
Eu aprenderia a olhar para um céu sem
estrelas, e achar sublime o céu de breu,
mas isso demoraria - acho eu.

Thursday, November 24, 2016

Approaches: Darkness

Equinoxially obtemperate
the Great Pumpkin arose.

Duck noises in the night
Ululating Heil Heil Quack

Scouring the world of reason
- that eternal, grumpy killjoy

Making it safe for oil, for
moneymaking and merriment

A white world without white ice -
oddly orange the figure at its prow

The Cunt-grabber in Chief, now
master of the dome of heaven

A red button, made of nightmares
hangs ever next to the Pumpkin

Approaches: darkness. For those
with dark skin, or cunts, or lives.

And it shall have illimitable dominion
(over what?

 aye, that's the rub) 

Wednesday, November 23, 2016

Stalingrado

Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas 
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora, 
e o hálito selvagem da liberdade 
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem, 
enquanto outros, vingadores, se elevam.

A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída, 
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas, 
na tua fria vontade de resistir.

Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.
Saber que vigias, Stalingrado,
sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes
dá um enorme alento à alma desesperada
e ao coração que duvida. 

Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!
As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio.
Débeis em face do teu pavoroso poder, 
mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,
as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta, 
aprendem contigo o gesto de fogo.
Também elas podem esperar.

Stalingrado, quantas esperanças!
Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas!
De umas apenas resta a escada cheia de corpos; 
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.
Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas, 
todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,
mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,
ó minha louca Stalingrado!

A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,
apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,
caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,
sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?
Uma criatura que não quer morrer e combate, 
contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,
contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate, 
e vence.

As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.
Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres, 
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.




- Carlos Drummond de Andrade

Monday, November 14, 2016

Dark with power

Li esse poema há muitos anos atrás, num livrinho que depois perdi e que provavelmente é o maior responsável pela minha americanofilia. 

Ele falava do Vietnã, falava da guerra fria. Mas talvez sirva para capturar os tempos que correm, também. 





Dark with power, we remain
the invaders of our land, leaving
deserts where forests were,
scars where there were hills.

On the mountains, on the rivers,
on the cities, on the farmlands
we lay weighted hands, our breath
potent with the death of all things.

Pray to us, farmers and villagers
of Vietnam. Pray to us, mothers
and children of helpless countries.
Ask for nothing.

We are carried in the belly
of what we have become
toward the shambles of our triumph,
far from the quiet houses.

Fed with dying, we gaze
on our might's monuments of fire.
The world dangles from us
While we gaze.


-Wendell Berry



Nosso sombrio poder, e ainda somos
invasores em nossa própria terra,
deixando desertos onde houve floresta
chagas no que já foram morros. 

Nas montanhas, nos rios
nas cidades e fazendas
nossa mão pesada cai, nosso sopro
potente com a morte de todas as coisas.

Rezai por nós, fazendeiros, aldeões
do Vietnã. Rezai por nós, mães
e filhos de países indefesos. 
Nada peçam. 

Carregados somos no ventre
daquilo que nos tornamos
rumo aos escombros de nosso triunfo.
Longe das casas tranquilas.

Cheios do morrer, olhamos para
os monumentos de fogo de nosso poderio.
O mundo, ele pende de nós
Enquanto olhamos.