Perdi a vista, depois a fé e o
destino
Assim minha noite extrema é três noites.
*************
Al-Maari, poeta cego, ateu e anarquista que viveu no século X.
Porcarias de minha lavra e pérolas da lavra alheia. Quando tem tradução, é minha a não ser quando indicado.
Wednesday, August 04, 2010
Tuesday, August 03, 2010
Camafeus
Não tenho mais sonhos,
que sonhos são coisas de gente moça
Hoje, faço outras coleções:
Frustrações, nostalgias, uma,
muito bonita,
de irritações.
Minha velha coleção de medos
cuidada com esmero
polida sempre que posso
guardo da juventude.
São caixas, muitas caixas
Não as largo por preguiça, um pouco
Por medo da saudade.
Não sei bem por que. Talvez seja ele também
- o desapego
coisa de gente moça.
que sonhos são coisas de gente moça
Hoje, faço outras coleções:
Frustrações, nostalgias, uma,
muito bonita,
de irritações.
Minha velha coleção de medos
cuidada com esmero
polida sempre que posso
guardo da juventude.
São caixas, muitas caixas
Não as largo por preguiça, um pouco
Por medo da saudade.
Não sei bem por que. Talvez seja ele também
- o desapego
coisa de gente moça.
Monday, August 02, 2010
In the shuttle, a great aluminium cylinder hurling us to Rio
In the higher planes of the air
Where only
Jet-stream is
Far above moisture,
life
and other irrelevancies
Companions to the sun
Canned like sardines
We are told what is important
The proper handling of masks
Where to take flight
And how to attach ourselves
Where only
Jet-stream is
Far above moisture,
life
and other irrelevancies
Companions to the sun
Canned like sardines
We are told what is important
The proper handling of masks
Where to take flight
And how to attach ourselves
Wednesday, June 02, 2010
Omphalos gaia
Você, que anda como uma gata
que nunca, jamais fica quieta
Que se mexe enquanto dorme e
às vezes mesmo quando parada
É entretanto a única solidez
Do mundo em que só vivo,
este
um caos
amorfo
vazio
terrível
E você, como se fosse sozinha outro mundo
De luz e de sombra na correta medida
De dureza e maciez perfeitas, enorme e
Minúscula, minha única, perfeita, exata
Deusa primordial - com passo de gata
que nunca, jamais fica quieta
Que se mexe enquanto dorme e
às vezes mesmo quando parada
É entretanto a única solidez
Do mundo em que só vivo,
este
um caos
amorfo
vazio
terrível
E você, como se fosse sozinha outro mundo
De luz e de sombra na correta medida
De dureza e maciez perfeitas, enorme e
Minúscula, minha única, perfeita, exata
Deusa primordial - com passo de gata
Tuesday, May 11, 2010
Na tua ausência
Na solidão da tua ausência
Todas as coisas parecem, mutáveis
Querer virar símbolos, caçoando
Do aleijamento que é tua falta
Na solidão da tua ausência
Ouço longe uma serenata tristonha;
vejo o desenho de tuas costas,
sinto tua cintura em minhas palmas
Ouço o grito de um camelô
Vendendo maquiagens mentiras velhas,
talvez verdades, e na mesma hora
traço com o dedo tuas sobrancelhas
O mundo se transfigura, passo a
titubeante passo. Vira você.
Uma você retalhada, explodida,
refletida de mil cacos de espelho
Na solidão da tua ausência,
Cada lembrança a cada passo
a cada gesto, a cada sopro,
é apenas lembrança, não Gabriela.
E em cada lembrança, cada sopro
em cada passo e cada gesto,
a solidão da tua ausência
é como nervo exposto.
Todas as coisas parecem, mutáveis
Querer virar símbolos, caçoando
Do aleijamento que é tua falta
Na solidão da tua ausência
Ouço longe uma serenata tristonha;
vejo o desenho de tuas costas,
sinto tua cintura em minhas palmas
Ouço o grito de um camelô
Vendendo maquiagens mentiras velhas,
talvez verdades, e na mesma hora
traço com o dedo tuas sobrancelhas
O mundo se transfigura, passo a
titubeante passo. Vira você.
Uma você retalhada, explodida,
refletida de mil cacos de espelho
Na solidão da tua ausência,
Cada lembrança a cada passo
a cada gesto, a cada sopro,
é apenas lembrança, não Gabriela.
E em cada lembrança, cada sopro
em cada passo e cada gesto,
a solidão da tua ausência
é como nervo exposto.
Wednesday, March 24, 2010
Liberdade
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doura
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa.
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
(F. Pessoa)
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doura
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa.
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
(F. Pessoa)
Wednesday, March 10, 2010
As sem razões do amor
Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no elipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
-Carlos Drummond de Andrade
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no elipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
-Carlos Drummond de Andrade
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