Wednesday, February 20, 2008

Só, acompanhado

Do nada, me crio.
Ao nada, me descrio.
Não há silêncio, aqui
no oco das coisas.

Há uma apreensão,
um medo de nada,
uma coragem quase,
mesmo, perfeitamente
absoluta e irrelevante.

"Se a alma não é pequena"
E se é? O que vale a pena?
Algo? Nada? Tudo, ainda?
E se (e apenas se) eu, ou
talvez outro, tiver agarrado
essa tal de alma,
e jogado fora?

Tuesday, January 29, 2008

Poema sobre a recusa

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.

- Maria Teresa Horta

(Prometo que daqui a pouco volto a postar algo de original.)

Monday, January 28, 2008

De tchaus

Este foi o nosso último abraço. E quando,
daqui a nada, deixares o chão desta casa
encostarei amorosamente os lábios ao teu copo
para sentir o sabor desse beijo que hoje não
daremos. E então, sim, poderei também eu
partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida
foi mais, muito mais, do que mereci.


- Maria do Rosário Pedreira

Monday, December 10, 2007

Se ha ido...

Se ha ido. Ya no como:
quedó sin gusto el pan.
Se ha ido - todo es tiza
si lo llego a tocar.

...Para mí, era el pan,
era la nieve;
ya la nieve no es blanca,
el pan no sabe a nada.


- Marina Tsvietáieva

Wednesday, December 05, 2007

Serendipity

Let’s have bizarre celebrations
Let’s forget who forget what forget where
We’ll have bizarre celebrations
I’ll play the Satyr in Cypris
You the bride being stripped bare

Let’s pretend we don’t exist
Let’s pretend we’re in Antartica

Let’s have bizarre celebrations
Lets forget when forget what forget how
We’ll have bizarre celebrations
We’ll play Tristan and Isolde
But make sure I see white sails

Maybe I’ll never die
I’ll just keep growing younger with you
And you’ll grow younger too
Now it seems too lovely to be true
But I know the best things always do

Let’s pretend we don’t exist
Let’s pretend we’re in Antartica

- Of Montréal

Friday, November 23, 2007

Teafania

Sempre achei - achei não, soube - que a perfeição não existia.
Sempre soube - ou talvez achei - que a imaginação superava
a realidade das coisas, e o olho do poeta, do louco, da magia
sabiam bem mais coisa do que os olhos das gentes. Achava
que se via mais fechando os olhos que com eles abertos
que o amor não era mais do que amizade, tesão e afetos.

Até que um dia essas certezas caíram, e quando abri os olhos
ouvi tua voz, deixando toda a poesia no chinelo, e pude ver
que há mais poesia do que em toda a literatura em teus joelhos.
Na curva da tua testa, no barulho que tua boca faz ao comer...
cada detalhe teu é um mundo, e te tocar por um instante é
mais alegria do que poderia imaginar em quantos séculos.

Monday, November 12, 2007

São Paulo

De volta à Garoa. Nem sinal de garoa. Ao invés disso, um calor seco traz o cheiro de milhões de escapamentos a quem ouse respirar, e faz com que gotas de suor escorram pela sua pele cheia de fumaça, traçando caligrafias improváveis enquanto descem. Caligrafias, também, na pia de porcelana quando se lava as mãos. Uma cidade de tinta, uma atmosfera escritora. Só é impossível é saber o que ela escreve; mais impossível ainda debaixo do céu de madrepérola derretida.

O cheiro dos escapamentos tentando sair de meus pulmões, de tosse em tosse. A Avenida Paulista, de perto sendo convertida ao cinza geral, pela remoção das pedras portuguesas. De longe, torres em meio à escuridão do céu, com os faróis no topo avisando ao céu para que não se meta com a cidade. Ou convidando as nuvens baixas. Nunca sei.