Wednesday, March 24, 2010

Liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doura
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa.

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

(F. Pessoa)

Wednesday, March 10, 2010

As sem razões do amor

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no elipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.


-Carlos Drummond de Andrade

Monday, February 08, 2010

To science

Cada vez mais se sabe que quase todos os dinossauros que, desde sempre, eram chamados de ornistiquianos, com bacia de ave (em oposição aos saurisquianos, com bacia de réptil) eram aves mesmo, com penas e tudo. Agora conseguiram até detectar as cores da plumagem de um. E lá se foram pelo ralo um século de ficção com répteis gigantes.

Então, do Poe:


Science! true daughter of Old Time thou art!
Who alterest all things with thy peering eyes.
Why preyest thou thus upon the poet's heart,
Vulture, whose wings are dull realities?
How should he love thee? or how deem thee wise?
Who wouldst not leave him in his wandering
To seek for treasure in the jewelled skies,
Albeit he soared with an undaunted wing?
Hast thou not dragged Diana from her car?
And driven the Hamadryad from the wood
To seek a shelter in some happier star?
Hast thou not torn the Naiad from her flood,
The Elfin from the green grass, and from me
The summer dream beneath the tamarind tree?


(Pessoalmente, acho a idéia de um tiranossauro com penas de pavão absurdamente cool. Quase no nível de "dirigível orbital no qual a PJ Harvey trampa de minha crooner pessoal.")

Tuesday, January 26, 2010

Poème sur le désastre de Lisbonne

O malheureux mortels ! ô terre déplorable !
O de tous les mortels assemblage effroyable !
D'inutiles douleurs éternel entretien !
Philosophes trompés qui criez : " Tout est bien " ;
Accourez, contemplez ces ruines affreuses,
Ces débris, ces lambeaux, ces cendres malheureuses.
Ces femmes, ces enfants l'un sur l'autre entassés,
Sous ces marbres rompus ces membres dispersés :
Cent mille infortunés que la terre dévore,
Qui, sanglants, déchirés, et palpitants encore,
Enterrés sous leurs toits, terminent sans secours
Dans l'horreur des tourments leurs lamentables jours !
Aux cris demi-formés de leurs voix expirantes,
Au spectacle effrayant de leurs cendres fumantes,
Direz-vous : " C'est l'effet des éternelles lois
Qui d'un Dieu libre et bon nécessitent le choix " ?
Direz-vous, en voyant cet amas de victimes :
" Dieu s'est vengé, leur mort est le prix de leurs crimes " ?
Quel crime, quelle faute ont commis ces enfants
Sur le sein maternel écrasés et sanglants ?


- Voltaire

Friday, January 22, 2010

Funeral blues

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He is Dead.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the woods;
For nothing now can ever come to any good.


- WH Auden

Wednesday, January 20, 2010

Num espreguiçar do sol

Um sol vermelho olhava o mar,
em meio à bruma da manhã.
Um sol vermelho olhava a terra.

Olhava as coisas, móveis e imóveis.
As gentes e os bichos.
As casas e as janelas, e os bancos da praça.

E na névoa, gentes e bichos e casas e praças
tudo era outra coisa, e tinha outra beleza.
Beleza que só o que não existe consegue ter.

Ali, entre o dia e a noite,
fora de um e da outra

a boniteza das coisas
(as móveis e as imóveis)

...lembrava até a tua.

Tuesday, January 19, 2010

Cores

Cores

Uma bela moça,uma vez
Me deu de comer.
Uma não - duas, três.

Da primeira vez, em verde
Da segunda, em amarelo
E a terceira, roxa -


Uma belíssima gororoba.