Friday, December 23, 2011

Leitor hipócrita

Tenho um enorme tédio de mim.

Bastam-me alguns minutos com um amigo
contigo
com um mendigo, motorneiro, ascensorista

para que pense: meu deus! Que personagem
mais enfadonho, sem graça, enfastiado
é esse que lhes olha por trás desses óculos?

Por que não correm? Não repararam?
Têm o medo de que eu lhes persiga?
Será gentileza?

Wednesday, December 21, 2011

A caravana

Como montanhas de sombra que avançam
Lentamente
Ritmicamente
Pesadamente
As bestas da caravana,
como neve suja as vestes de seus mahouts.

Dessas massas, vastos cumulonimbos,
indistintos contra o poente,
apreendes: primeiro os sons
o passo surdo, ouvido em teu peito
tremente de chãos e assustador.
Os sinos de prata.
O resfolegar.
O ranger de couros e cordas.
Os quase humanos gritos dos mahouts.

Vês uma cordilheira passar por ti
No frio do deserto.
Não vês os homens que comerciam e mercadejam
Não vês as bestas que sofrem e sangram
Não vês, tanto quanto ouves
Grandes massas de som à tua volta.

Se foi, a caravana. E estás só.
No frio.
No deserto.

Saturday, November 19, 2011

D. João, Infante de Portugal

Não fui alguém. Minha alma estava estreita
Entre tão grandes almas minhas pares,
Inutilmente eleita,
Virgemmente parada;

Porque é do português, pai de amplos mares,
Querer, poder só isto:
O inteiro mar, ou a orla vã desfeita —
O todo, ou o seu nada.


-F. Pessoa

Friday, September 02, 2011

Pedido acanhado

Aprisionar para si a sutilíssima luz
Feito para cíclopes, para heróis, lendas
Além das mãos e do engenho dos comuns.

Dizem que, no deserto, entre as tendas
Um sábio recebeu de Deus uma visão
E ao tentar guardá-la perdeu as vistas.

Não sou sábio nem herói. E minha visão
já não funciona sem cristais, logo
querer o impossível é demasiada ambição.

E no entanto, és luz, és visão, és fogo
E eu, no medo de perder-te, vejo
Do eterno a vontade, da vida o cruel jogo.

Tuesday, June 07, 2011

Palhaço

Disse o poeta
ridiculamente
que são ridículas, as cartas de amor.

E, me fiando em poetas,
cá me armo para escrever a ti.
(A ti ou de ti, tanto faz.)

Meu guante de renda com bolinhas pretas.
Meu capacete, uma peruca vermelha
e um rubicundíssimo narigão.

Monto meu minúsculo corcel de luminoso aço
(made in Germany by Volkswagen)
e parto, pena em riste, à tua procura.

Eu disse pena.

Wednesday, June 01, 2011

Descriptio fantastica

Tu...

Tu és um elemental.
Nos teus braços, a imagem do mar.
O fogo de Prometeu nos cabelos.
Uma luz velada nos olhos.
Boa terra entre teus pés.

Tu és o graal.
Prenhe de mistérios.
Inatingível mesmo envolta
pelo guante e pela mão forte.

Tu és a fênix.
Na imolação da recriação.
Autogênita, antropofágica.

Tu és, apenas, tu.
Maior e belíssima fantasia.

Friday, May 27, 2011

Tiger

TIGER, tiger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?

In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare seize the fire?

And what shoulder and what art
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand and what dread feet?

What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? What dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?

When the stars threw down their spears,
And water'd heaven with their tears,
Did He smile His work to see?
Did He who made the lamb make thee?

Tiger, tiger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?


- William Blake